Desafio 77 palavras Escritiva nº 24 – Mini histórias de infância

Cinderela do séc. XXI

A miúda vivia com uma madrasta bera e duas irmãs invejosas. Era tão maltratada que nem tinha um iPhone. Alguém criou um evento no Face, ela procurou as calças mais rasgadas e foi. Conheceu um tipo e trocou SMS com ele a noite toda, mas quando ficou sem bateria pôs-se na alheta. Esqueceu-se dos fones e foi o pretexto ideal para se encontrarem novamente. Namoraram, casaram e postaram uma selfie. Todos fizeram like… todos, menos as irmãs.

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Regresso à infância

Tatiana procurava a morada do jantar para o qual fora convidada pelo colega que ainda pouco conhecia, quando reparou que se encontrava próxima da casa de férias que os seus falecidos avós venderam havia 20 anos. Encontrou o portão verde que trepava na companhia das irmãs e quis entrar, mas ouviu passos demasiado apressados para serem inocentes e escondeu-se. Uma trintona com a roupa recentemente rasgada e ensanguentada passou a correr, em gritos de pavor.

Abandonou a curiosidade de rever a casa que a acolheu nos anos 80 e voltou a concentrar-se no jantar. Regressou ao volante e só parou na rua escura do restaurante escolhido. Retocou o baton e preparou-se para o jantar com o Fernando, que acabava de chegar. Cumprimentou-o e, antes de reparar no arranhão fresco que trazia no pescoço, viu-se amarrada na carrinha do recente colega, que a levava de regresso à casa de infância.

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Aplicações do mais credível que há

Muito se vê pelo Facebook aplicações com títulos deveras apelativos do género “Que tipo de mulher és?”, ou “O que diz a tua foto de perfil?” ou ainda “Que palavra resume a tua vida?”. Obviamente que o resultado é invariavelmente positivo, e a malta fica com o ego em cima porque o Facebook lhes diz que são mulheres sensualérrimas e fortes pra chuchu, que a foto de perfil demonstra 200% de honestidade, 500% de doçura e 800% de inteligência da mais pura e que a palavra que resume a sua vida é “coragem”, “superação” ou qualquer outra coisa daquelas que fazem chorar as pedras da calçada.
Por mim tudo bem. Não critico, até porque sou pessoa de respeitar as opções alheias, mas gostava mesmo muito de saber se a resposta fosse “És uma mulher assim já pró entradota.”, ou “A tua foto de perfil diz que estás a precisar de uma dieta rigorosa.” ou que “A palavra que resume a tua vida é blheck.”, se o pessoal continuava a partilhar tão alegremente como faz atualmente.
Escusado será dizer que eu nem me atrevo a experimentar, não vá ter uma resposta do estilo e ficar em depressão profunda. A verdade é que, se o Face analisasse o que escrevo, a resposta certa seria “Tens um mau feitio do caraças!”. Pronto, ao menos assumo.

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Desafio 77 palavras nº 105

(A propósito da frase de Einstein: “Não há maior demonstração de insanidade do que fazer a mesma coisa, da mesma forma, dia após dia, e esperar resultados diferentes.” Em minha defesa, tenho a dizer que já ponho as lentes de contacto para aspirar…).

Vida de Pitosga

Sou míope e uso óculos a condizer: grossos e pesados (e feios!). Mas também uso lentes de contacto para aligeirar a feiura da coisa. Ao domingo, dia de aspirar, teimo em descansar os olhos e fazer a tarefa de óculos. Mas procurar pó no chão encoraja a gravidade e os óculos grossos e pesados (e feios!) começam a escorregar pelo nariz abaixo.

Resultado: desfoca-se-me a imagem e o raio do chão fica mal aspirado… todos os domingos!

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Desafio 77 palavras nº 104 – letras obrigatórias: A T E M P O S

Emparelhando meias

Ana tinha emprego mesmo palerma: observar sapos amestrados! Ter este maravilhoso passatempo ocupava-lhe sempre a tarde. E mais! Precisava observar sapos até terem engolido moscas pretas. O salário? Apenas trezentos e muito pouco. Ora sabendo Ana tamanha estupidez, magicou parar o serviço a tempo. Empregou-se melhor. Para o seu agrado, tem enorme motivação para o seu atual trabalho: emparelhar meias pretas! Ou seja, amontoar todas (e muitas!) peúgas. Ontem, sorrindo, Ana tagarelava: “Emparelhar meias pretas? Oh sim!”

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Desafio 77 palavras Escritiva nº 5 – Cruzar comboios

Seria ela?

O regresso a casa era sempre assim, quase adormecida pelo embalo da carruagem e de olhos postos nas águas onde o Sol se despedia com promessa de voltar.
Naquele dia foi diferente. O coração disparou quando pousei os olhos num rosto desconhecido mas tão familiar. Seria ela? Seria aquela a mulher que me deixou com três dias de vida depois de me carregar no ventre? Enquanto decidia se a abordava, levantou-se e saiu.

Nunca mais a vi.

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Desafio 77 palavras RS nº 34 – frase de Mia Couto («O homem que vive em espanto deixa portas abertas no sonho.»)

Determinado

Cinco décadas numa vida agreste, mais de duas num casamento incolor e falsos amigos que julgara genuínos roubaram-lhe o brilho que já lhe morara no olhar. O desemprego recente apagou o último suspiro à motivação para abandonar os lençóis de manhã.

Um dia acordou e percebeu que nada o surpreendia… perdera a capacidade de sonhar. Saiu à rua determinado a pôr fim à vida quando se cruzou com ela, que lhe sorriu. Parou e voltou para casa.

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